Quando alguém me faz uma pergunta, meu maior desejo é poder responder com sinceridade. Algumas vezes fiz isso, em outros tempos. Porque - oras! - se me perguntam, é porque esperam alguma resposta - pensava eu outrora. Mas, nessa altura dos acontecimentos e da vida, estou bem mais atenta aos sinais e, se me dizem "pode ser sincera", já sei que o significado é "apenas ouça" (bem... nem sempre... mas muitas vezes).
É evidente que não pretendo transformar essa minha insinceridade momentânea em regra de vida. Apenas divago sobre um acontecimentozinho de hoje - banal, pequeno, irrelevante, até - que me custou alguns segundos de amordaçamento involuntário...
Mês de maio com frio por aqui - coisa rara, mas tão boa!... Para aquecer, muitas canções espalhadas pela casa o dia todo! A vida tem andado colorida ultimamente...
"Conquistei, palmo a pequeno palmo, o terreno interior que nascera meu. Reclamei, espaço a pequeno espaço, o pântano em que me quedara nulo. Pari meu ser infinito, mas tirei-me a ferros de mim mesmo."
(Fernando Pessoa - Livro do Desassossego)
Tenho ouvido Vicente Barreto ultimamente. Muito, bastante. Antes de dormir, durante o sono, ao acordar e em todas as horas livres do dia. É assim quando descubro a obra musical de alguém: imersão absoluta para descobrir, apreciar, saborear os detalhes, acordes, versos, intenções, sentimentos, emoções...
Daqui a algum tempo, ao me lembrar desses dias de 2011, a voz de Vicente Barreto emergirá com as memórias e, então, será como reviver...
"Vida foi me emaranhando
nas cordas de um violão
noites eram como ondas
e pra quem nunca viu o mar
é mágica.
Penas do meu pé na estrada
empenam minha ilusão
nunca desisti de nada
não sou cabeça avoada
só não baixei olho pro chão.
Vida foi me sacudindo
mas deu também intuição
noites eram como ondas
e pra quem sabe decifrar
é música..."
Ah, as estrelas... "As estrelas são sempre constantes amigas", escreveu Antoine de Saint-Exupéry - e gosto demais dessa verdade tão simples!
Na imensidão noturna jamais estou só. Um brilho distante, constante e discreto sempre aponta o caminho para o infinito – e não é exatamente isso o que o coração humano busca indefinidamente? O infinito?
Por isso também gosto muito de conversar com elas (e, "para ouvi-las, muita vez desperto e abro as janelas, pálido de espanto", poetizou Olavo Bilac...) - eu falo, elas me escutam; se me calo, elas decifram segredos.
No silêncio denso da noite me esqueço das horas e me abandono ao luar - que, como eu, também experimenta fases minguantes...
Estrelas, silêncio, nuvens, luar... Paisagem completa para uma alma errante...
Não quero amanhecer! Quero a madrugada eternizada em mim... Mas logo vem a manhã - e então vou fechar os olhos até que outra noite me devolva a plenitude da luz...
(de 10/03/2005 - preciso revirar meus baús com mais frequência...)
Acontecimentos muitos nesses pouco mais de dois meses de 2011. Penso que terei belíssimos horizontes iluminados estrada afora. Retalhos de detalhes muito bons do passado - distante ou nem tanto - têm brotado aqui e ali, e tenho percebido raízes, compreendido parte da história e saboreado esse delicioso entendimento de mim. Quanto aos pedregulhos do caminho... ah! Ainda vou aprender a me divertir com eles!
"Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens."
(Fernando Pessoa)
Tudo que eu quero é virar a página do calendário...
É simbólico, mas inspira qualquer bom recomeço.
Tudo no ar (Geraldo Azevedo - Carlos Fernando)
antes do tempo
as folhas do calendário
fizeram dele inimigo
quem se pensava que fosse
de todos o mais
rasgou-se o véu do meu rosto
quebrou-se o elo havido
se a vida, a morte, o minuto
sempre estiveram comigo
que culpa lá tenho eu
quem busca corre perigo
amigo meu como um peixe
de prenda te dou o mar
da terra te dou a flora
no espaço, o claro luar
e não me pergunte nada
tá tudo boiando no ar
Se houve algo significativo em 2010 - essa quase-página-em-branco de meus dias - foi o fato de eu ter me debruçado sobre a obra de Zeca Baleiro. Descobri uma grande alma e minha alma se encontrou em alguns de seus versos marcantes.
(Ah... Não fosse a arte para dar vida à vida...)
Amargo Zeca Baleiro
o vinho podre que escorre das xícaras
o mel amargo o meu coração
de onde quer que tudo venha
tudo irá pra onde nada nunca se alcança
tenho a memória de tudo que existe
tudo que é triste alegre ou não
eu guardo as flores mortas na sala
eu faço sala pro tempo
ainda que tarde agora que é tarde
sempre é cedo
ainda que tarde agora que é noite
eu sinto medo
De vez em quando olho pra trás e... melhor deixar pra lá...
A vida segue em frente e o que ficou já se foi. Se é importante o alicerce do passado? Sim, creio que sim... mas desde que ele não seja um peso excessivo para o presente e nem um obstáculo para o futuro.
Há momentos - e há diversos momentos assim! - em que a estrada parece perdida nas brumas inexplicáveis do acaso. Perdida, então, me sinto - sem bússola, sem mapa, sem solução.
Por quantas encruzilhadas já passei? Algumas - não sei se poucas ou muitas. Sei apenas que um novo caminho sempre virá ao meu encontro. E é justamente essa certeza e essa esperança que preciso cultivar a todo custo, para o meu próprio bem...
Após mais um dia de baixa pressão atmosférica, a generosa chuva do início da noite traz sentimentos de renovação.
(Há pressão também no ambiente de trabalho, mas lá a chuva não entra... Tenho esboço de algumas soluções para amenizar o clima seco, mas milagres precisam de parceria para que aconteçam...)
Pelo visto a madrugada será agradavelmente amena - no momento, é este presente que importa!
Domingo, véspera de feriado, céu encoberto, e aproveito para ensaiar um retorno ao blog e - mais difícil! - o retorno ao trabalho após uma temporada de férias... Desnecessário acentuar o estado de espírito de quem, ao acordar, implorou: "não quero voltar!" Isso passa. O tempo sempre se encarrega das soluções...
Sem ilusões (Candinho)
Sem asas de incerteza, hoje, eu me vejo
verso livre, ave solta pelo céu.
Já não me queima a chama da ilusão,
pisei no chão.
Nas mãos eu mostro a vida, o que aprendi.
No rosto, simplesmente o que ganhei.
Pois, cada vez que em luta me feri,
mais forte eu me tornei.
Sou mais humano, o peito diz assim...
Mais pura é a minha voz
e mais brilhante o Eu dentro de mim.
Andar, sair; apanhar, nos caminhos,
as flores que alcançarem minhas mãos - nada mais.
Andar, sair, olhando todo mundo
com os olhos, mente, alma e coração, sem medo.
Sonhos, ambições, contos, ilusões,
asas e paixões, não me levam mais.
Sonhos, ambições, contos, ilusões,
asas e paixões, nada mais me leva.
Outono/inverno.
Reorganizar-me, eis o desafio.
Redirecionar. Rever. Repensar. Reestruturar. Redescobrir. Recriar.
Ou melhor: respirar, relaxar e prosseguir!
"...eu trago no canto um tesouro das Minas Gerais
também já bebi cantoria nos copos do norte
no alforje, viagens
no peito, cantigas do sul
no som da viola, matizes do planalto central..."
(Flávio Vezzoni)
Mas - oras! - compreender o incompreensível? Não; luta vã.
O ser humano quer respostas definitivas, prontas, acabadas; mas, por ser a alma tão imensa, tudo é revestido com aroma de infinito.
Um degrau para a compreensão é a paciência em observar e analisar a variedade, a diversidade, as inúmeras possibilidades do ser. É um bom exercício para construir harmonia.
À procura da paz. Assim estou, e assim devo sempre estar.
"Quando tudo tá perdido na vida..."
Não, não; não é nada disso que quero falar.
Vamos recomeçar: "Por enquanto há escória de sobra..."
Também não é exatamente isso.
Mais uma tentativa: se eu tivesse um pouquinho da coragem de Fernando Pessoa eu escreveria exatamente o que quero falar neste momento. E diria simplesmente isto: não confio nos seres humanos. Não acredito no que as pessoas falam. Acredito, sim, que as gentes mentem muito. No fundo, no fundo, eu até gostaria de crer um pouquinho. Mas não é minha natureza. Para alguém me convencer de algo é preciso se esforçar muito. Principalmente, é preciso exalar verdade.
(anotações sem muita importância; observações que brotam de meu ambiente de trabalho; constatações do que sou; nada mais)
"Aquele que vive o Ideal contrai um empréstimo com a Eternidade... Cada um de nós, a soma de todos nós, exprime a força criadora da utopia."
(Graça Aranha)
Passou o mês de março, passou parte da vida, passou o presente e o que era futuro, passou o vento por aqui, um pássaro também passou, passou uma nuvem e também a chuva passou - e eu, passo a passo, sigo viagem porque passar é da vida.
Se você quer me conhecer
Finja que toca comigo
E faz comigo essas canções que eu faço
E tem tanta coisa por dentro pra dizer
Coisas que não podem ser ditas de uma vez só
E sinta a solidão
Que eu tenho quando canto uma canção bem alto
A solidão que eu tenho quando abro o coração e canto
Se você quiser me entender ouça aquilo que eu não digo
Nas entrelinhas das canções que eu faço
Por que é que eu me guardo do mundo assim escondido
É coisa que só pode explicar quem vive o que eu vivo
E sinta a solidão
Que eu tenho quando canto uma canção bem alto
A solidão que eu tenho quando abro o coração e canto
Versos simples e tão cheios de mim, e que tenho cantarolado bastante ultimamente. É tão gostoso quando a gente se identifica com algum texto, não? A arte é capaz de aprontar essas artes com a gente, constantemente! (que bom!)
"trazia a fé
e um violão
a mão no sonho
e o pé no chão
uma saudade imensa
e uma constante solidão"
(Reynaldo Bessa)
Gosto de canções que falam de quem sai do ninho. Não porque tratam do "bater asas" - isso também é bonito -, mas porque falam daquela saudade do não-sei-onde que todos nós experimentamos alguma vez na vida, aquele sentimento de que algo ficou perdido em alguma curva da estrada, e de que também a curva da estrada se perdeu no tempo.
Hoje o dia amanheceu nublado, com vento frio e garoa. Cenário raro aqui onde moro, mas um de meus cenários prediletos. Tempo assim é propício à instrospecção e à nostalgia, e logo surge um fundo musical para trazer mais interrogações e algumas respostas.
Pausa para um cálice de vinho.
"Ninguém me dizia nada e tudo era só mistério." Enfrentar o desconhecido é necessário. É, também, infinitamente complicado. Sobretudo porque somos humanos. Não fosse isso, seria fácil - mas não seria vida.
Gosto de contemplar a escuridão porque o menor sinal de brilho torna-se algo grandioso.
A noite sempre foi minha companhia predileta. Seus segredos e seus mistérios são cativantes e creio que são bons auxiliares para a compreensão de nosso interior. Por quê? Não sei... Em todos nós há segredos e mistérios, talvez seja por isso...
Para escolher outro caminho é preciso colocar o pé na estrada!
"Andei pisando pelas ruas do passado
criando calo no meu pé caminhador...
Andei passando como as águas, como o vento,
como todo sofrimento que enfim me calejou.
Terei futuro deslizando no presente..."
(Vicente Barreto - Alceu Valença)
Alguma coisa estava me incomodando ultimamente, me deixando sem ânimo, e eu não sabia exatamente o que era... Mas creio ter encontrado a resposta agora, ao terminar o expediente e me declarar "em férias". Pronto! Sou outra pessoa!!! De volta à vida, que a vida é mais! Horizontes me esperam, "here, there and everywhere"...
Cada vez que invento uma viagem fico imensamente animada e feliz por inúmeros motivos. Porém, algo sempre consegue tirar parte da empolgação às vésperas da ida: a necessidade de preparar a bagagem, por menor que seja. Então estou assim: levemente desanimada por ter que tirar coisas de gavetas, armários e prateleiras para organizá-las na mala.
Sei que belas paisagens me esperam. Sei que é um privilégio ter a possibilidade de ir pra estrada, vez ou outra. Pensando bem... mãos à obra! Para terminar a tarefa o quanto antes, basta começar...
(E não é assim, também na vida, alguma vez? Sair do onde-estou para o onde-posso-estar certamente já deve ter não acontecido pela falta de coragem em organizar a bagagem.)
"chega um ponto que eu sinto, que eu pressinto
lá dentro, não do corpo, mas lá dentro-fora
no coração e no sol, no meu peito eu sinto
na estrela, na testa, farejo em todo universo
que eu estou vivo
vivo como uma rocha"
(Raul Seixas)
Que lindo dia foi ontem! Enquanto não adormeci, tarde da noite, não cessaram os bons acontecimentos. Fazia tempo que eu não me sentia feliz desse jeito - não digo que eu não tenha me sentido feliz com frequência, digo que a forma de sentir esteve com outro tempero.
Se houve fatos extraordinários? Não, de maneira nenhuma!
Apenas os pequenos sinais ocultos em cada pequena acontecência é que estavam grandiosos em significado.
Cada pessoa que falou comigo, cada problema resolvido no trabalho, cada conversa com algum amigo de outras eras, o vento de agosto, o céu azul, as folhas secas espalhadas livremente pelo meu caminho, o pôr-do-sol obstinadamente belo, tudo, enfim, carregava uma mensagem profundamente clara que, numa tradução bem simples e resumida, significa "eu existo".
Mais nada há a dizer.
Explicações demais desencantariam o sagrado instante de sentir-me...
Por onde tenho andado? O que tenho feito? Com quem tenho falado? Tenho pensado, ao menos? Que capítulos novos tenho escrito na história? (De qual história pergunto? Da minha vida? Mas eu sequer tenho certeza se há vida!)
Gosto de ler. Às vezes encontro almas que me compreendem absurdamente. Uma delas é Fernando Pessoa (ele e todos eles que o compõem). Também sou eu e muitas outras em mim. Todos são, talvez.
Mas citei Pessoa porque quero escrevê-lo neste agora:
"Reconheço hoje que falhei; só pasmo, às vezes, de não ter previsto que falharia. Que havia em mim que prognosticasse um triunfo? Eu não tinha a força cega dos vencedores ou a visão certa dos loucos... Era lúcido e triste como um dia frio."
(Livro do Desassossego)
"Fazia tempo que o sol não derramava luz na minha vidraça..." (ZG)
Fazia tempo que eu não saía rumo a algum interior motivada apenas pela música. Fazia tempo que eu não experimentava estradas! Eu quase tinha me esquecido da sensação...
Semana passada meu destino foi São José do Rio Preto, que fica a alguns quilômetros e quilômetros daqui - distância suficiente para se observar todo tipo de paisagem beira-estrada enquanto os pensamentos voam e fazem sua própria viagem.
Fui pra lá para ver dois shows no Sesc, na programação da festa junina: na sexta-feira, Lô Borges... Música de Minas, Clube da Esquina e "tudo que você queria ser". Sábado foi a vez de Zé Geraldo... "Já faz muito tempo que eu tô nessa terra, muita coisa já ficou pra trás"...
Música é essencial para me manter no prumo, e ter estado lá era de fato necessário - e nem eu sabia, acho...
No dia seguinte, a viagem de volta. Frio da manhã, café à beira da estrada, encontro com estradeiros e os sonhos correndo livres nas campinas sob o céu azul... "Um passageiro à espera de condução sempre sonha!"
Estava refletindo em como as coisas se repetem na vida da gente, ou melhor, acontecem de forma semelhante a algo já experimentado... É... às vezes parece que é a reprise do filme...
Então, de fato, os fatos nunca serão novos? (Nem sempre cabe essa pergunta! Porém, vezes sem conta...)
A vida, cíclica como ela só, traz à cena atores com as mesmas questões com os mesmos problemas com as mesmas surpresas com o mesmo espanto com as mesmas novidades com algumas semelhantes soluções ou dissoluções com os mesmos riscos com outros adereços trazidos com o tempo etcétera etcétera etcétera (e, sim, nem sempre há vírgulas para pausar o ritmo).
E eu sigo velejando com o balanço das ondas de mares outrora navegados...
Era uma vez...
Érase una vez...
Once upon a time...
Es war einmal...
Il était une fois...
C’era una volta...
Palavras? Histórias? Coisas a dizer? Inúmeras, como em qualquer tempo.
Porém, algo não me deixa ir além das reticências, por mais que eu tente ensaiar alguma frase. Por que não quero falar? Por que não quero escrever? Por que não quero pensar?
Meu silêncio está me inquietando, mas preciso respeitar as estações de mim... - estamos no outono, dentro e fora.
Hoje deveria ter sido uma sexta-feira como tantas outras, ou apenas um dia como tantos outros, mas inúmeras recordações vieram à tona sem querer e, de repente, tudo me transportou a um outro tempo ou, melhor dizendo, a um passado não muito distante que significou uma ponte entre mundos e mundos e mundos...
Lembranças de viagem para uma noite fria de Minas Gerais, saudades de conversas madrugada adentro via MSN, confidências para grandes recém-amigos, certeza de dias melhores em qualquer tempo, projetos, planos, sonhos... De tudo, um magnífico resultado: um presente cheio de cores e a vida plena de sentido (e ouso dizer: creio que, vez ou outra, esbarrei com a felicidade em algumas de minhas esquinas...)
"Abril havia recoberto a terra de ervas e de flores que, nos jardins da cidade, se assemelhavam a segredos que a terra revela às alturas. (...) As montanhas e as árvores e os rios mudam de aspecto conforme as circunstâncias e as épocas. Similarmente, os traços do homem mudam com seus pensamentos e sentimentos." (Kahlil Gibran)
Descobri, e faz bastante tempo, que as estradas exercem um grande poder sobre mim. Mais: estradas noturnas são capazes de me transportar a um campo neutro dos sentidos, quer dizer, são capazes de neutralizar todas as minhas sensações, quer dizer... Quando viajo à noite e dirijo o olhar para as estrelas não sou mais eu - surge um outro eu inteiramente extasiado e, por breves instantes, vivo outra vida. Em frações de segundos aparecem soluções para todas as coisas, em segundos experimento a plenitude da vida e, esteja a alma como estiver, encontro uma tal harmonia que chega a me assustar de tão perfeita! Há inúmeras explicações racionais (ou nem tanto) para tudo isso, mas agora quero somente o sabor da mística, do mistério, da mágica possível...
"Quero ir pra casa, não vejo minhas coisas desde o começo de abril.
Um relógio velho me espera parado desde o começo de abril.
...e logo depois você volta pra estrada pra ver o que ainda não viu..."
(Sá - Guarabyra)
"jogue sua vida na estrada
como quem não quer fazer nada
ouça bem as vozes do mato
como quem abriu o seu coração"
(Márcio Borges - Lô Borges)
"fugi pela porta do apartamento
nas ruas, estátuas e monumentos
o sol clareava num céu de cimento
as ruas, marchando, invadiam meu tempo
viajei de trem, eu viajei de trem..."
(Sérgio Sampaio)
É assim o deserto de agora: aridez de palavras.
Fixo o olhar no violão que repousa em uma das paredes do quarto e aguardo uma frase qualquer sussurrada pelas cordas iluminadas com o eco brilhante do luar pós-chuva. Mas nenhuma palavra há, apenas sons. E verdadeiramente não é preciso mais que isso para embalar meus sonhos. Sons e sonhos se misturam e se confundem naturalmente; e isso é muito, e isso é tudo!
Nem tanto o tempo que passou e nem tanto o que virá; o que me faz pensar no tempo, agora, é justamente o tempoagora, isto é, o momento preciso entre o que pensei há um segundo e o que tento escrever, não fosse a velocidade absurda com que as ideias chegam e me escapam. Passou, e não sei mais que pensamento era. Nem sei se, de fato, era alguma ideia ou apenas intenção de se ter uma ideia. Sem importância essa observação, já que o objetivo se foi. O tempo é outro de segundos atrás e, mudado o pano de fundo, é preciso mudar o enredo. Volto ao silêncio inicial, portanto.
Em relação a uma outra espécie de tempo, tenho a dizer que as temperaturas máximas desses dias estão muito além do que eu gostaria de suportar. Esgotam-me todas as forças físicas e intelectuais.